Hoje vou ver a psicóloga outra vez. Ansiosa que estou, a ver se esta vez corre tão bem como a primeira. Estou mais receosa, por outro lado. Ela pediu-me para escrever uma carta e não tive coragem de o fazer. Não sei porquê. Acho que ela lhe imprimiu um carácter definitivo, a última carta, as últimas palavras, e eu não quero dizer as últimas já. Quero poder "dizê-las" sempre, continuar com a sensação de que posso, a qualquer momento, acrescentar mais alguma coisa, partilhar um acontecimento, explicar um facto qualquer. Não quero escrever a última e finalizar uma conversa. Não estou preparada para terminar o contacto, ainda que não seja físico. Aliás, ou muito me engano, ou isso nunca será possível. É impensável dar por terminado o contacto entre um pai e uma filha, muito menos neste caso, quando fica tanta coisa por dizer, por perguntar e esclarecer. Compreendo a importância que isso poderá ter para me sentir melhor, mais leve, para exteriorizar aquelas emoções que, segundo ela, se encontram bloqueadas. Mas quando as exteriorizar tem de ser definitivo? Aquilo que disser agora serão as últimas palavras? Então preciso de algum tempo para pensar no que quero realmente dizer. Isto não pode "terminar" assim.
Errado, Pumps, muito errado. Não tens de pensar no que queres dizer. Tens de dizer o que sentes, tal e qual. Só assim terá o resultado que pretendes: a libertação de emoções. Se pensares nunca vais dizer exactamente aquilo que estás a sentir.
Então, Dra. Psicóloga, se calhar o melhor é ensinar-me a bloquear o pensamento para poder desbloquear as emoções. Não me fale em comprimidos que isso já ando eu a tomar. Nem me diga que é normal sentir-me assim porque se há coisa que eu não me sinto é anormal. Fiz tudo o que me mandou - menos a carta - e mesmo assim não liberto emoções. Será que as tenho, Dra. Psicóloga? Se calhar sou mesmo feita de aço, como sempre disse. E purpurinas!